Ex-marido de PM morta com tiro na cabeça presta depoimento; advogado diz que ele confirmará que ela nunca quis se matar
13/03/2026
(Foto: Reprodução) Peritos e investigadores se reúnem nesta quarta (11) para tratar do caso da PM morta com um tiro na cabeça
O ex-marido da policial militar Gisele Alves Santana deverá prestar depoimento na tarde desta sexta-feira (13) na Polícia Civil de São Paulo para afirmar que a soldado “nunca teve a intenção de se matar” durante o período em que os dois foram casados.
Ela foi encontrada morta em 18 de fevereiro no apartamento onde morava com o atual marido, o tenente-coronel da Polícia Militar (PM) Geraldo Leite Rosa Neto, de 53, no Brás, Centro da capital.
O caso, registrado inicialmente como suicídio, passou a ser investigado como morte suspeita. A hipótese de que a agente da PM se matou não foi descartada totalmente, mas também está sendo apurada a possibilidade de que a mulher possa ter sido vítima de feminicídio (saiba mais abaixo).
A informação sobre o depoimento do ex-marido de Gisele foi confirmada ao g1 pelo advogado José Miguel da Silva Júnior, que representa a família da soldado. Ele acompanhará também o ex-companheiro dela no 8º Distrito Policial (DP).
“O depoimento dele é importante. Eles tinham uma boa relação, e ele vai sustentar que ela nunca demonstrou qualquer indício de tentativa de se matar enquanto estiveram juntos”, disse o advogado. Segundo ele, a filha que o ex-marido teve com Gisele, e que morava com ela, deverá ficar sob a guarda dele agora.
A reportagem não conseguiu contato com o ex-marido para comentar o caso.
De suicídio a morte suspeita
A soldado da PM Gisele Alves Santana era casada com o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto
Montagem/g1
Gisele tinha 32 anos. Geraldo tem 53. Foi ele quem deu a versão à Polícia Civil de que a esposa se suicidou e quem telefonou para a PM pedindo ajuda.
Segundo o coronel, após uma discussão, o oficial disse que pediu a separação e foi tomar banho. Um minuto depois, Gisele teria pegado sua arma e disparado contra a própria cabeça, pelo lado direito. Isso teria ocorrido sem ele ver.
A família da soldado, no entanto, contestou a hipótese de suicídio, apresentou relatos de que Gisele vivia uma relação tóxica com o coronel e pressionou por uma reavaliação do caso.
A Polícia Civil então reclassificou o episódio como morte suspeita. A Justiça determinou a redistribuição do caso para a Vara do Júri, por entender que há indícios de crime doloso contra a vida — categoria que inclui feminicídio, por exemplo.
Laudos periciais reforçaram as dúvidas sobre a versão inicial. Exames apontaram marcas de unhas e arranhões no pescoço da policial, além de lesões contundentes no rosto e sinais de disparo à queima‑roupa.
Além disso, agentes que atenderam a ocorrência estranharam o fato de que a arma que matou Gisele estava ainda na mão dela _algo incomum em casos de suicídio.
Outros pontos que levaram dúvidas à investigação sobre a versão de sucídio. O fato de que Geraldo disse que tinha ido tomar banho, mas estava com o corpo seco quando as autoridades chegaram até o apartamento. E de ele ter telefonado para um desembargador amigo, que foi até o local _câmeras do hall do prédio gravaram esse encontro. Depois de conversarem, o coronel tomou banho.
Morte de PM em apartamento levanta dúvidas: laudos, câmeras e testemunha contradizem versão de suicídio
Por decisão judicial, o corpo chegou a ser exumado para novos exames, justamente porque ainda havia dúvidas sobre as circunstâncias da morte.
A investigação não descarta formalmente o suicídio, mas também apura se Gisele foi vítima de feminicídio — hipótese defendida pela família e pelo advogado.
“Nós não acreditamos na possibilidade de suicídio. O mais provável é que ela tenha sido assassinada”, afirmou José Miguel. Ele também criticou o andamento do caso: “Não estamos satisfeitos, achamos que está muito lento”.
Na avaliação da família e da defesa, a delegacia já teria elementos para pedir a prisão preventiva do coronel. “Existem requisitos para a prisão. Há várias testemunhas que têm pavor dele, houve alteração da cena da morte, o que já é suficiente para pedir a preventiva”, afirmou o advogado.
O g1 procurou a defesa de Geraldo, mas não obteve resposta. O tenente-coronel se afastou do trabalho após a morte da esposa. Desde então, só falou uma vez — no registro inicial da ocorrência — e ainda não voltou a depor formalmente na polícia.
A investigação também analisa os laudos produzidos pela Polícia Técnico‑Científica. Já estão concluídos:
Laudo necroscópico: causa da morte por traumatismo decorrente de disparo encostado do lado direito da cabeça. Também identificou lesões no rosto e pescoço, compatíveis com pressão digital e marcas de unhas, confirmadas no primeiro exame e na exumação.
Laudo residuográfico: não detectou pólvora nas mãos do coronel ou de Gisele — o que gera estranheza na hipótese de suicídio.
Laudo da trajetória do tiro: de baixo para cima.
Ainda estão pendentes de juntada ao inquérito o laudo toxicológico, que determinará se Gisele consumiu alguma substância, e o laudo do local da morte, com registros fotográficos da posição do corpo. Peritos já adiantaram que encontraram marcas de sangue no banheiro, o que também causou estranheza já que Gisele foi encontrada morta em outro cômodo.
Paralelamente à apuração da Polícia Civil, a Polícia Militar instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM) após receber denúncias anônimas relatando que o casal vivia uma relação marcada por ameaças, perseguição e instabilidade emocional atribuídas ao tenente‑coronel.
As investigações continuam em andamento.